Quanto tempo havia passado? Quantas vezes fora daquela forma? Era simplesmente mais uma manhã, de mais um ano, de mais uma década, de mais um século,
de mais uma vida qualquer... Ela podia ver sempre as mesmas coisas, o relógio marcava 6:00 da
manhã, e tocava sempre com aquele mesmo som irritante, os mesmos azulejos azuis e a
mesma água quente, o mesmo cheiro de flores silvestres daqueles mesmos sabonetes, as
mesmas toalhas felpudas e fofas, as mesmas imagens no espelho. Era tudo que havia naquela
manhã, tudo igual. Ele saia de casa e o beijo se tornara quase algo mecânico, e ela ainda se
perguntava onde estava a paixão daqueles beijos calorosos de adolescente, onde estavam
aquelas despedidas calorosas dos primeiros dias, o "tchau" das crianças era sem vida e parecia
não fazer diferença para ela, aqueles pequenos eram parte dela, parte da vida dela, mas ela
sempre se questionava até que ponto ela conhecia seus próprios filhos, até que ponto poderia
dizer que sabia quem eram eles, afinal de contas eram tantas atividades todas as semanas que
ela quase nunca os via, e quando em casa a televisão estava fazendo bem o seu trabalho. O latido
do cachorro já não era mais intenso, já não incomodava mais da mesma forma, afinal de contas
ele sempre latia todas as manhãs, ele sempre fazia aquela algazarra quando todos estavam
saindo para deixa-la com suas atividades da casa, ele sempre latira e ela sempre gritara, mas
parecia que eles não eram mais assim tão altos à ponto de incomodar qualquer pessoa.
E ela ficou ali parada, na porta da sala de sua própria casa nem se sabe quanto tempo depois
daquilo, ela podia ouvir a torneira que gotejava incessantemente, podia ouvir o apitar da chaleira
que lembrava ter ganhado de presente de casamento de alguma tia distante, o som da TV ligada
na sala com jornais matinais, e ela se lembrou que logo começaria seus programas de receita. E
tudo aquilo era comum, tão comum que ela jamais havia se dado conta do que se passava ali. E
tudo estava como ela sempre havia deixado, as flores de um amarelo morto sobre a mesa, tão
artificiais quanto tudo naquela casa, os copos e cristais, que brilhavam sempre que o sol batia
neles, nos armários, tudo tão bem organizado quanto os pensamentos eram organizados em sua
mente e a cortina finamente enlaçada, tanto quanto era finamente enlaçado seu penteado de
cabelo... E tudo aquilo era sempre tão normal... E tudo aquilo era sempre tão banal...
Agora ela podia sentir o quão estranho era aquilo tudo, não havia mais dia ensolarado com
crianças correndo pelo quintal, não havia mais noite fria com chocolate quente na cama, não havia
mais família ou casamento, não havia mais vida... Tudo estava da mesma forma... SEMPRE...
Tudo estava SEMPRE na mesma rotina...
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
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