Ele já não sabia a quanto tempo estava ali protegido pela sombra da árvore já sem folhas no frio
daquela manhã ainda completamente mergulhada na neblina, o tom acinzentado do próprio dava uma aparência quase onírica à realidade confundindo seus sentidos. O som do vento que soprava de maneira calma porém constante se confundia com o chiado das folhas que se arrastavam pelo chão, e ele podia jurar que seus olhos viam vultos esbranquiçados que dançavam e corriam por entre as colunas de concreto dos prédios próximos. Seus olhos pesaram novamente como se várias toneladas fossem colocadas sobre eles, e sua mente foi invadida repentinamente por uma reconfortante sensação de calor trazida pela idéia de um prazeroso descanso, e como ele precisava daquilo, como ele, naquele instante estava cedendo por poder dormir um pouco mais, seus olhos não eram mais do que uma pequena feresta, incapaz até mesmo de enxergar a mais extravagante das cores quando o vento frio o trouxe de volta à realidade, e fazendo com que se firmasse em seu pensamento que ele não podia dormir naquele momento, e nem mesmo ali.
Estava ficando cada vez mais difícil conter as ondas de sono que faziam com que seus olhos ficassem vermelhos, e deixava apenas uma pequena fresta aberta o suficiente para que ele pudesse ver a interessante dança que as folhas faziam próximas aos seus pés. Eram movimentos hipnóticos, movimentos de ida e vinda e que faziam com que elas rodassem em volta de seus pés, movimentos que faziam com que elas tivessem uma coloração borrada hora laranja ou marrom hora vermelhas ou mesmo verdes, elas tinham todas as cores e eram como um arco-íris, e dançavam e cantavam por entre seus pés, que flutuavam muitos metros acima do chão. E tudo estava leve, tudo estava quente e a brisa era como um consolo para seus ossos cansados, ele queria poder voar ainda mais, queria poder seguir ainda mais além, junto com as folhas que dançavam e cantavam, e faziam toda aquela festa em volta de seus pés, e aquele vento frio que soprava e gelava até mesmo a última das vértebras de sua coluna... Vento frio?
Seus olhos se abriram rapidamente, e estavam muito vermelhos, a bruma se dissipara em muitos lugares já, e o vento havia carregado as folhas para longe. Uma nesga de sol passava por entre as nuvens e iluminava um canto qualquer por ali, o pátio ainda vazio estava silencioso agora, perturbado apenas pelo uivo do vento frio que o arrancara tão vilmente de seu belo sonho. Suas costas doíam por causa da encomoda posição em que se colocara na vã tentativa de impedir o sono de pega-lo desprevenido, ele sentia a dormência na ponta dos dedos e mesmo assim, mesmo com todos aqueles encomodos ele ainda sentia como se tudo arrastasse sua mente para os profundos umbrais do mundo dos sonhos, e seus olhos começaram novamente a se fechar de forma bastante lenta e gradual. Seus olhos estavam quase que completamente fechados, e seus pensamentos já voltavam à vaguear por entre os ventos quentes e as músicas oníricas tocadas por arpas e trompetes distorcidos.
As grandes pilastras de concreto já haviam quase que completamente se transformado em fontes de luz e água rodopiantes quando ele percebera um vulto ao fundo delas. Não como os que ele havia enxergado antes, não era simplesmente uma sombra, não era simplesmente mais uma
visão fugaz criada por sua mente entorpecida pelo sono, era real, o andar era desenvolto e as pernas bem torneadas e o gingado do quadril formavam um movimento hipnótico que prendia sua mente ao cansativo mundo real, o movimento de cada músculo parecia arrancar dele um suspiro diferente, os cabelos eram caxeados e soltos, e caiam sobre os ombros e os seios que não eram muito volumosos, mas ele imaginou que poderiam caber na palma de sua mão. Ela sorria, e ele sabia disso, ela tinha um sorriso cativante e branco como a neve, o que contrastava com sua pele morena, e seus olhos eram de um verde vivo e brilhante que poderia ofuscar se colocados contra o sol, ela ia caminhando por entre as pilastras, como um vulto, como um espírito que entara atrai-lo para o mais pernicioso dos pecados. Ela sumia cada vez mais longe no corredor, e seus olhos começaram a se fechar ainda mais uma vez, dessa vez sem nenhuma resistência, mas antes de fecha-los por completo ele teve breve sensação de vê-la olhando para trás, e um leve sorriso se formou em seus lábios antes de ser tragado pelo sono.
terça-feira, 16 de outubro de 2007
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