quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Saudades...

Que horas deveriam ser? Ele não tinha a mínima noção, mas sabia, com certeza, que era tardem
bem mais tarde do que costumava dormir. O quarto estava escuro e ele nem sequer conseguia
enxergar o relógio de ponteiros que sua mãe havia lhe dado bem no princípio do ano, e estava em cima de sua mesa de estudos forrada de livros abertos, mas que quase nunca eram lidos, e
acabavam fiando ali de enfeite. O celular estava ligado à menos de 30cm de seu braço, jogado em
cima da mesma cama onde ele estava deitado, mas a simples menção de pega-lo fazia com que
sua cabeça doesse, ele não suportava mais olhar para aqueles números, fizera isso muito tempo
já. Por fim, já desistira de saber que horas eram, queria apenas ficar ali, deitado, naquele silêncio
manso que o envolvia, e deixando seu pensamento ir o mais longe que lhe era permitido.

A janela de vitrôzinhos estava levemente aberta, o que fazia com que o ar frio daquela noite
pudesse entrar esfriando levemente o quarto e trazendo juntamente à ele a luz do luar. Era uma
lua crescente, mas muito brilhante, e não havia nenhuma nuvem no céu que a obstruísse por
muito tempo. Ela era visível pela fresta mais baixa dos vitrôs, e nem parecia tão distante quando olhada daquele ângulo, ele tinha a impressão nítida que poderia agarra-la se esticasse a mão para fora da janela, mas mesmo aquilo não conseguiu fixar sua atenção por tanto tempo assim, e sua mão tateou novamente atrás do pequeno aparelho logo ao lado do seu braço. Mas ele apenas
segurou, e novamente ficou parado olhando para o teto, uma luta parecia estar sendo travada
dentro dele, e ao soltar o pequeno aparelho, parecia decidido a não tocar nele novamente.

Ele se mexeu um pouco na cama, aquela posição já estava fazendo suas costas doerem, e
então ficou de frente para a pequena mesa de cabeceira logo ao lado, havia algo ali, e ele sabia
que era aquele velho porta-retrato. tantas fotos já haviam passado por ali, tantas que ele nem
mesmo podia se lembrar de todas, mas aquela, ele tinha certeza de qual era, ele tinha certeza de
que não conseguiria se esquecer dela tão cedo, e nem tinha por que fazer isso, gostaria que ela
jamais tivesse de sair dali. Seu pensamento estacionou-se nisso, não queria pensar mais, não
mais do que já estava pensando, sua cabeça doía, e uma nova pontada lembrou-lhe disso. Ele
esticou o braço, e puxou o porta-retrato e virou-se novamente para poder simplesmente olhar
aquela foto com um pouco de luz. Ele se lembrava bem daquele dia, fora uma festa na casa de
algum parente dela, um sorriso se precipitou em seus lábios ao se lembrar disso, mas não
parecia um sorriso de satisfação ou de tranquilidade, era um sorriso tremulo, era um sorriso meio angustiado, um sorriso abatido. Ele passou levemente os dedos sobre o vidro que separava seu toque de um contato direto com a foto, e com uma ilusão de passar sua mão sobre seu rosto, que ele sabia, não serviria de absolutamente nada, à não ser fazer com que sua cabeça desse outra pontada.

Estava escuro e silêncioso naquele quarto, estava frio e não havia nenhum sono nele... Quantas
horas deveriam ser naquele momento? Quanto tempo havia ficado ali? Calado esperando que
alguma palavra fosse dita, ou que o sono o tomasse para fazer com que tudo aquilo acabasse?
Ele não tinha idéia, e achava que não queria saber também, a foto havia escorregado de seus
dedos, e estava ao lado de seu travesseiro, e novamente ele lutava contra o ímpeto de tomar o
pequeno aparelho. Um minuto segurando-o fez com que sua coragem surgisse, e ele finalmente
trouxe a pequena tela, uma luz verde muito fraca era gerada por ela, até próximo ao seu rosto. Um suspiro fraco e leve foi solto por ele, ainda faltavam mais de 14 horas para qualquer notícia.
Enquanto isso, ele pensava por que aquilo acontecia, e sua cabeça novamente dava um pontada
de dor, ao mesmo tempo que em que em seu peito ele sentia uma pontada profunda de saudades.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Rotina...

Quanto tempo havia passado? Quantas vezes fora daquela forma? Era simplesmente mais uma manhã, de mais um ano, de mais uma década, de mais um século,
de mais uma vida qualquer... Ela podia ver sempre as mesmas coisas, o relógio marcava 6:00 da
manhã, e tocava sempre com aquele mesmo som irritante, os mesmos azulejos azuis e a
mesma água quente, o mesmo cheiro de flores silvestres daqueles mesmos sabonetes, as
mesmas toalhas felpudas e fofas, as mesmas imagens no espelho. Era tudo que havia naquela
manhã, tudo igual. Ele saia de casa e o beijo se tornara quase algo mecânico, e ela ainda se
perguntava onde estava a paixão daqueles beijos calorosos de adolescente, onde estavam
aquelas despedidas calorosas dos primeiros dias, o "tchau" das crianças era sem vida e parecia
não fazer diferença para ela, aqueles pequenos eram parte dela, parte da vida dela, mas ela
sempre se questionava até que ponto ela conhecia seus próprios filhos, até que ponto poderia
dizer que sabia quem eram eles, afinal de contas eram tantas atividades todas as semanas que
ela quase nunca os via, e quando em casa a televisão estava fazendo bem o seu trabalho. O latido
do cachorro já não era mais intenso, já não incomodava mais da mesma forma, afinal de contas
ele sempre latia todas as manhãs, ele sempre fazia aquela algazarra quando todos estavam
saindo para deixa-la com suas atividades da casa, ele sempre latira e ela sempre gritara, mas
parecia que eles não eram mais assim tão altos à ponto de incomodar qualquer pessoa.
E ela ficou ali parada, na porta da sala de sua própria casa nem se sabe quanto tempo depois
daquilo, ela podia ouvir a torneira que gotejava incessantemente, podia ouvir o apitar da chaleira
que lembrava ter ganhado de presente de casamento de alguma tia distante, o som da TV ligada
na sala com jornais matinais, e ela se lembrou que logo começaria seus programas de receita. E
tudo aquilo era comum, tão comum que ela jamais havia se dado conta do que se passava ali. E
tudo estava como ela sempre havia deixado, as flores de um amarelo morto sobre a mesa, tão
artificiais quanto tudo naquela casa, os copos e cristais, que brilhavam sempre que o sol batia
neles, nos armários, tudo tão bem organizado quanto os pensamentos eram organizados em sua
mente e a cortina finamente enlaçada, tanto quanto era finamente enlaçado seu penteado de
cabelo... E tudo aquilo era sempre tão normal... E tudo aquilo era sempre tão banal...
Agora ela podia sentir o quão estranho era aquilo tudo, não havia mais dia ensolarado com
crianças correndo pelo quintal, não havia mais noite fria com chocolate quente na cama, não havia
mais família ou casamento, não havia mais vida... Tudo estava da mesma forma... SEMPRE...
Tudo estava SEMPRE na mesma rotina...