quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Uma Questão de Negócios (Capítulo I)

A noite já havia caído, Edu olhava pela janela de seu apartamento, o olhar distante. Quando criança costumava fazer isso, olhava para as infinitas luzes que pairavam por todo horizonte da cidade, costumava ficar ali durante horas, apenas observando aquelas luzes. Perdera as contas de quantas foram às vezes em que, imerso em seus próprios pensamentos, sequer via que as luzes aos poucos se apagavam, deixando em seu lugar uma imensa e vazia escuridão. Ele estranhara a diferença, nunca havia percebido até aquele momento.
A luz da lua entrava de forma tênue no apartamento, iluminando apenas o necessário para que fosse possível andar por lá sem que esbarrasse em nada. O apartamento sempre fora bastante espaçoso, tendo em vista ter morado tanto tempo sozinho, sim, para apenas uma pessoa aquele apartamento era realmente espaçoso. Logo na entrada havia uma espaçosa sala retangular, suas paredes eram de uma cor creme, apesar de seus constantes protestos contra a cor nunca tivera oportunidade ou mesmo vontade de pintá-las de qualquer outra que fosse. A única janela, na qual se encontrava parado, estava na extremidade mais ao canto da sala, ela costumava ser maior nas lembranças infantis que mantinha em sua mente. Havia dois sofás dispostos simetricamente atrás dele, um imediatamente atrás enquanto o outro se encontrava ao fundo no lado oposto da sala, eram sofás de camurça pretos com três lugares, vários detalhes em madeira podiam ser vistos nos braços, pés e cabeceira dos sofás, eram peças antigas, mas ele nunca soubera exatamente de onde teriam vindo, preferindo imaginar histórias fantásticas sobre os intrincados símbolos gravados. Uma pequena mesa redonda estava ao lado do sofá mais próximo, não mais do que uma mesa para pequenos adornos e sobre ela um vaso com varias rosas vermelhas, a maioria já murcha e sem cor na verdade. No canto direito da sala quase em frente à pequenina mesa redonda uma televisão desligada se enchia de poeira pelo tempo que se encontrava ali sem ser ligada, ou sem que qualquer pessoa sequer notasse que ali estava. A porta da sala ficava no lado oposto à janela, próximo ao outro sofá. Era uma porta bem trabalhada, em estilo vitoriano com maçanetas adornadas, e estranhos símbolos em toda a sua extensão, assim como nos sofás Edu nunca soube exatamente o que significavam aqueles símbolos, mas quando criança gostava de imaginar que, ao passar pela porta se concentrando nos símbolos entraria em um mundo mágico. Como fora tolo quando era criança. Próximo à porta, não mais do que dois metros, se encontrava um corredor escuro que levava aos aposentos pessoas do apartamento.
O silêncio pairava pelo apartamento e era, naquele momento, quase absoluto, sendo quebrado apenas por um irritante e contínuo barulho, algo como uma goteira, uma torneira mal fechada imaginou o próprio Edu em uma das vezes que sua consciência foi trazida de volta à realidade. O barulho parecia, em suma, não incomodá-lo, ele continuava a olhar fixamente para o profundo horizonte, seus olhos castanho-claro estavam vidrados naquela imensidão como se ele buscasse as respostas de todas as suas perguntas naquelas infinitas luzes. O vento soprava com certa força batendo nas cortinas vermelhas aveludadas, fazendo-as balançar de forma singular e dando ao ambiente um aspecto de ainda mais vazio.
O olhar de Edu começou a dançar do horizonte distante que ele contemplava até à cidade logo abaixo e, em fim, para dentro da sala em que se encontrava. Provavelmente, pensou ele em um devaneio quase sensível, aquela seria a ultima vez em que estaria contemplando aquele horizonte, a última vez em que veria aquelas paredes. Tantos momentos, tantas lembranças chegavam à sua mente a cada segundo que ficava até mesmo difícil não mistura-las, risos se perdiam pelo ar e vozes sem tom se dissipavam pelos quartos e corredores, tudo já havia sido diferente e agora... Tudo estava quieto.

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2 comentários:

Clariiice ♥ disse...

vai terminar quando?

Unknown disse...

Realmente existe algo que te puxa a curiosidade... toca sua mente com delicadeza, porém plantando a dúvida em cada pesso que ele dá.