Seus passos eram leves, porém ritmados e rápidos, quase imperceptíveis na escuridão daquela noite, o vento zunia por seus ouvidos, fazendo com que seus cabelos opacamente dourados se tornassem uma profusão de fios longos e esvoaçantes, muitas vezes chicoteando sua pele já empalidecida pelas rajadas frias que sopravam através da rua. Aquela noite estava particularmente fria. A rua praticamente vazia abrigava pouquíssimos mendigos que, àquela hora, se amontoavam nos cantos aquecidos por cobertores velhos. Ela era larga e escura, o que o deixava o jovem rapaz bastante tenso. Seus olhos perscrutaram cada canto de uma das esquinas, e cada uma das várias janelas nos prédios vizinhos, as sombras pareciam esconder segredos a muito esquecidos e aprisionar medos escondidos em cada uma das ranhuras, que o fazia pensar que a própria rua poderia ter olhos que o observavam não importando o lugar para onde ia. Por um instante o jovem parou. Pareceu a ele uma eternidade, que se estendera ardilosamente enquanto olhava de soslaio para os lados em busca de um motivo para sua inquietação. Suspirou de forma profunda retomando os passos rápidos, tentava deixar para trás toda a pressão que lhe apertava profundamente o peito, e uma nova lufada fria de vento chicoteou-lhe o rosto.
A escuridão da noite parecia se intensificar a cada passo, tornando-se por muito pouco palpável. O jovem agora andava tão rápido, que parecia querer saltar de uma só vez e correr todo o caminho restante, seus olhos estavam semi-serrados, e sua boca murmurava algo incompreensível. A rua parecia se desdobrar cada vez mais, e ele imaginou se teria realmente um fim.
Um grande prédio residencial começou a aparecer do meio da escuridão na esquina de um cruzamento, devia ter não mais do que sete andares e sua fachada era de uma cor próxima ao marrom, bastante esgarçada pelo tempo. Suas varias janelas estavam fechadas, salvo por uma, que balançava uma cortina vermelha para fora ao sabor do vento. Ele olhou para cima, seus olhos azuis brilhavam de uma forma estranha, e pareciam dar outra vida ao seu rosto. Um frio subiu por sua espinha, e a tensão voltou a marcar-lhe. Naquele momento, parecia não ter mais de 25 anos.
As escadas que levavam ao Hall eram feitas de pedra, com bastante lodo em suas rachaduras, o velho corrimão de ferro estava parcialmente solto denotando sinal dos vários atos de vandalismo que sofrera nos últimos anos, a porta já se encontrava semi-aberta, e não parecia haver qualquer sinal de vigia ou qualquer outra pessoa ali dentro. Dentro do Hall, estava escuro, não havendo qualquer luz diversa da que vinha da rua, pelo pequeno espaço que sobrara na porta já semi-aberta. Não havia muito ali, uma bancada antiga feita em madeira sinalizava o lugar onde um vigia ou porteiro já deveria ter trabalhado anos atrás, o carpete estava roço e os passos do jovem rapaz faziam levantar finas camadas de poeira. No outro lado da pequena saleta de entrada, uma escada levava até os andares superiores, ela estava bem escondida pelas sombras, mas ele sabia que ela estava lá, podia nunca ter estado naquele lugar antes, mas podia sentir cada pedacinho daquele local. O apartamento que procurava ficava no terceiro andar, ele parou por um instante ao pé das escadas, antes mesmo que pudesse encostar seu pé ao primeiro dos degraus, fechou os olhos por um instante, sentia algo estranho, havia algo ali que parecia sufocá-lo. Tentou se controlar por um instante, absorver toda a tensão que lhe tirava a calma, moveu seus lábios novamente em algum tipo de prece silenciosa, e por fim, tomando fôlego em um suspirar profundo, começou a subir as escadas. Cada degrau rangia de forma particularmente alta quando era pisado, e davam à impressão de que romperiam a qualquer momento. O terceiro andar era nada mais que um longo corredor com inúmeras portas. Ele parou novamente, agora no topo da escada, seu coração batia freneticamente, e uma tensão ainda maior tomou conta de sua mente, como se vários antigos desejos emanassem daquele lugar, seu semblante parecia duro, pesado e abatido. Tomou um pouco mais de ar uma última vez e sem sequer abrir os olhos recomeçou a caminhar. Passo a passo sabia que ganhava o corredor em direção à última porta daquele corredor, começava a acelerar seus passos, quando uma voz lhe fez parar abruptamente.
- A festa não começou? Ótimo! Odiaria estar atrasado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário