terça-feira, 15 de abril de 2008

Fidelidade...

Ele se ajeitou na poltrona, ela era grande e com um estofado bastante confortável, a posição que escolhera podia muito bem fazer com que dormisse rapidamente em condições normais, a música calma podia ser ouvida bem ao fundo, e provavelmente deixaria de ser perceptível com o passar do tempo ficando apenas uma recordação vaga de que a mesma estava passando ali. Realmente o violino era um instrumento fascinante, pensou em um instante.

O vinho sobre a mesa já havia perdido a mágica em seu sabor e provavelmente se tornara apenas mais uma embriagante bebida alcoólica, um genuíno Aloxe Corton, ótima safra, 1929, com certeza uma das melhores que já havia sido engarrafada. Mesmo assim, mesmo sendo um vinho de tão boa qualidade e de paladar tão refinado ele o bebia, gole após gole, com um vigor muito maior do que possivelmente deveria. Parecia realmente não passar de mais um motivo para ele.

O cigarro queimava-se sozinho, devagar, como se traga-lo fosse algo trivial de mais para se fazer, como se o simples fato de estar aceso já tirasse de dentro dele a ansiedade causada por tudo aquilo. Havia se tornado um rito lento, onde apenas o ar frio fazia com que ele queimasse, enchendo o ar com sua característica fumaça, que inacreditavelmente, parecia não ter o poder de irritá-lo, como de costume. A luz fraca tornava cada uma das formas naquele quarto etérea, mas isso não era importante, ele as conhecia, havia estado ali uma infinidade de vezes e conhecia cada uma delas de maneira quase íntima. Cada uma daquelas formas flutuava, entrando e saindo esporadicamente em neblinas e rodas de ciranda. O álcool provavelmente estaria fazendo efeito.

Mesmo com a janela fechada o frio conseguia penetrar no quarto, não que ele efetivamente se importasse, e apesar da pouca roupa que trajava, mas era a sensação de frio o mantinha acordado, um pequeno incomodo para estimular o corpo, o frio o mantinha desperto. O barulho da chuva batendo na janela era hipnótico, e se misturava com a música de forma tal, que pareciam uma só sinfonia. Parecia sempre estar chovendo nesta época, parecia sempre chover quando estava ali. Aquelas noites o incomodava, talvez se fosse possível não procura-las mais, mas alguma coisa o levava até aquele lugar, e, por mais que seu próprio cinismo o deixasse à mercê de uma dúvida, ele tinha plena ciência de seus motivos. Seu falso convencimento dizia a si mesmo “É comum!”.

O ranger da cama o fez voltar à realidade, ela não estava mais do que dois metros da poltrona e ele sequer conseguia vê-la, ou talvez simplesmente não sentisse mais vontade de olhar para lá. O cheiro do perfume ainda se alastrava pelo ar, mesmo sob a densa fumaça do cigarro que queimava em sua mão, ele parou um instante, havia perdido a conta de quantos, e também não se importava mais, a ocasião não permitia. Sua mente viajou novamente até o perfume, era adocicado, muito provavelmente até de mais para seu próprio gosto, mas plenamente aturável no início da noite. O cigarro talvez tornasse aquele cheiro menos acentuado, era por isso que fumava, tragou mais uma vez, fazendo com que uma nuvem de fumaça fosse de encontro com que o que poderia ser o limiar do adocicado perfume. Sim, isso, mais uma vez o cinismo o salvara de questionamentos mais profundos, e ele tinha plena certeza disto.

O fino respingar que ainda batia à janela, e o incansável som dos violinos tragaram-no novamente para pensamentos profundos, questionamentos que muitas vezes ele nem mesmo se dava ao luxo de tentar descobrir. Sua mente divagou. Como havia começado com tudo aquilo? Sua inocência havia sido tamanha, que ele suspirou uma vez mais, e sorveu outro gole de vinho. Havia sido inocente e deixara se levar por um instinto infantil, uma vontade imatura, no entanto, irremediavelmente, prazerosa.

Como pudera ser tão... Tão... Não havia como descrever, talvez a melhor de todas as palavras fosse hipócrita. Deixara tudo para trás, deixara tudo de lado apenas para sentir aquela velha sensação que buscara por tanto tempo, aquele “frio na barriga” que os jovens ainda falam em suas inúteis adolescências. Uma risada mais alta, e sua mente de voltara à realidade. Ele percebeu que estava fazendo mais barulho do que costumava fazer quando imerso em seus sonoros pensamentos. Um instante de silêncio a mais, onde os violinos e a chuva se desdobravam em sons ensurdecedores, apenas um instante de silêncio a mais e sua tranqüilidade poderia retornar. Seus pulmões pareciam não mais conseguir conter o ar, e sua respiração foi se soltando de forma vagarosa, no mesmo compasso em que a respiração dela ia calmamente se desfazendo.

Onde estivera mesmo?
Sim, uma inútil auto-analise de seus próprios erros, ou talvez simplesmente mais uma avaliação de como seu instinto o dominara, fazendo com que se tornasse aquilo que por tantos anos criticara. Quanto cinismo de sua parte. A embriagues começara a tornar tudo aquilo hilário demais, e ele imaginou quantas chamadas deixara de atender, havia estado ciente da grande maioria delas, e simplesmente negligenciara cada uma. Seu sorriso havia se tornado distorcido, e mais um cigarro chegava a quase queimar uma de suas mãos. A memória lhe era reavivada por ver aquela pequena luz brilhando sobre a mesa, 30 de junho, sim esta era a data de hoje, e meia-noite já havia passado muitas horas atrás. Ele se conteve por um instante, se vendo tentado, talvez seu medo fizesse com que atendesse, ou simplesmente deixasse com que esta se somasse a tantas outras que sempre acumulavam em noites como esta.

30 de Junho...
Era a primeira vez que isso acontecia dessa forma, e seu pensamento se direcionara para a pequena Liz, talvez houvesse ainda um pouco de importância naquilo tudo, neste momento parecia até mesmo plausível a idéia de que houvesse nela um sentido para todo aquele drama, sim, talvez ela fosse a resposta. Ele se afundou um pouco mais na poltrona quando ela lhe veio à mente.

30 de Junho... Tanto tempo juntos e nada mais parecia fazer sentido.

Ele se levantou, o vinho distorcera até mesmo sua coordenação, ou talvez fosse simplesmente mais uma forma de inventar desculpas para suas próprias ações. Seu caminhar até a cama foi vacilante, lembrou-se em um último momento do cheiro dos cabelos dela, era intrigante como as coisas aconteciam agora. Deitou novamente, abraçando ela como se fosse à última pessoa em que poderia fazê-lo, e desejou por mais uma vez estar novamente em casa.