sexta-feira, 8 de maio de 2009

Foco...

Ele reteseou-se novamente enquanto divagava.
Seu olhar perdido em algum ponto no horizonte, parecia buscar algo. Foco.
Essa palavra, girava a cada segundo em sua mente, muito provavelmente longe do próprio sentido. Foco.
Quanto tempo teria ficado focado em algo à ponto de estar em sintonia com aquilo, parte harmônica do todo em que se integrava, se construía. Riu de si mesmo por estar pensando nisso.
Seus olhos se delongaram um pouco mais naquele pontos, as curvas dela tinham um sabor aos olhos que fazia com que prendesse sua atenção, até mesmo, mais do que gostaria. Foco, se lembrou. Resolveu que focaria-se naquilo. Se lembrava com perfeição de detalhes de cada uma daquelas curvas. Podia se lembrar mesmo dos toques, de cada uma das sensações, do respirar... Irritou-se.
Se perguntou mais de uma vez para onde havia ido seu foco, e reteseou os músculos das costas, em um esgar, afim de espantar qualquer pensamento. Mente limpa. Mente vazia. Mas eles ainda vinham em torrentes, inundavam-lhe a visão mesmo de olhos fechados. Irritou-se ainda mais, deixou de olhar. Se concentrou. Foco... Uma folha.
Mente limpa. Mente vazia.
Uma vida inteira - começou -, pensamentos profundos, intrínsecos, que algumas pessoas até mesmo diriam, filosóficos, absurdos, dementes. Um único momento era o suficiente. Tanta pseudo-genialidade apenas o irritava cada vez mais, começou a protestar por ignorância, quando lembrou-se de que não seria ouvido. Queria apreciar aquelas curvas com outros olhos, olhos mortais, sem se lembrar de tantas outras coi... Foco!
Riu novamente.
Os movimentos bruscos ainda eram os mesmos, e tornavam-se vivos, quase uma sequência de obras capitâneas, rubras e escarlate. Eram exatamente assim em sua imaginação, e ele mesmo sem saber, procurava nela um olhar, de soslaio que fosse, para acalentar seu desejo de SER, de TER. Imaginou o quanto era patético. Tentava divagar aquilo que enxergava ao seu redor. Conhecidos, colegas, rostos sem face. Caminhavam até ele, conversavam com ele amenidades, enquanto sua mente passava a deliciar-se em lembranças luxuriantes. Foco. Exatamente.
Divagou um pouco mais longe, e pensou, por um instante, ter visto um olhar de esguelha para si. O formigar na virilha lhe dizia bem onde havia foco, e a cada pulsar de peito fazia com que a idéia lasciva se tornasse ainda mais adorável. Sentiu um vento quente passando, e fechou os olhos por não mais do que um único segundo, sentindo também um toque leve em seu ombro. Espanto. Tentou imaginar o quanto tempo levara aquele único segundo, uma distração milenar, que fizera com que sequer notasse a aproximação. E cada pulsar, ribombava, como tambores antigos. Sentiu o peito apertar-se por um instante, o próprio êxtase do momento, contido em cada célula de seu corpo. Ela olhava-o. E talvez fosse algo corriqueiro, quase comum, mas de forma alguma banal. Sentou-se em seu colo. Normalidade. Os braços envoltos em seu pescoço, os seios levemente pressionados contra seu próprio peito, o mesmo sorriso de tantas outras vezes...
Ele olhou para ela mais uma vez, sem conseguir perceber nenhum olhar de volta, e naquele instante, não existia foco.

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